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Filipenses 2,5-11, exegese e teologia

Franciscanas de Cristo Rei.

Motivação histórica. Falando de Suor Arcangela o livro Cenni di Storia e Spiritualitá, Venezia, 1988 pg 153-154 diz que: "Desde o inicio de seu governo, melhor dizendo, da sua vida religiosa, um seu pensamento constante foi aquele que, na linguagem do tempo, se exprimia com a frase "salvar almas", fazer o apostolado para salvar as almas e dar a própria contribuição a Paixão de Cristo. As suas cartas circulares, em número de 12, exprimem claramente este desejo. As cartas têm inicio no ano de 1920, mas o desejo já estava no coração da irmã Arcangela antes disso”.

A entrega para a salvação das almas se constitui de fato, um engajamento para que prevaleça o reinado de Cristo. Certamente esta não é a meta só de irmã Arcangela, mas de toda a Congregação nesse tempo por ela liderada. A partir dela se pode ver que o engajamento no reinado de Cristo se faz com a paixão que levou Cristo a se entregar pelo resgate da humanidade e de toda a criação.

O reinado por meio da paixão. Os sofrimentos de Cristo por nós, em favor de nossa libertação e plenitude é o foco do apostolado de Paulo: "Encontro minha alegria nos sofrimentos que suporto por vós: e o que falta aos sofrimentos de Cristo, eu o completo em minha carne em favor do seu corpo que é a Igreja" (Cl 1,24). Este apostolado como contribuição a Paixão de Cristo tão caro ao apóstolo Paulo é o ponto de conexão com o atual ícone carismática das irmãs. Este hino (Fl 2,5-11) chamado de kenosis, despojamento, humilhação, etc..., nos apresenta, de fato, como Jesus Cristo, o filho de Deus, realiza a nossa salvação, vista por muitos, mas particularmente por irmã Arcangela como caminho do apostolado. Para salvar outros é necessário dar a própria vida, abrir mão dela.

A ideia fundamental do texto é que nenhuma esfera do que foi criado escapa ao reinado de Cristo a partir do momento em que ele cessa de pertencer a este mundo, como se compreende em João 18,36, e ingressa no de Deus. Paulo diz claramente, em outra passagem, que este mesmo reinado do Cristo não será plenificado senão no fim dos tempos e ele ainda acentua que isso será realizado ao preço de uma luta total entre este Cristo soberano e os Poderes adversos, representados pela morte, símbolo do drama de toda a humanidade. Isto pode ser confirmado em 1 Coríntios 15,24-28.

A ação apaixonada de Deus antes da Paixão de Cristo. Podemos escolher entre outras, uma aproximação do Primeiro Testamento em Êxodo 3,7-10. Ali Deus diz a Moisés: "Eu vi a opressão do meu povo no Egito. Ouvi o seu clamor sob o golpe dos chefes da corvéia. Conheci seus sofrimentos. Desci para libertá-los das mãos dos egípcios e fazê-los subir para uma terra que mana leite e mel.... E agora Moisés vai, eu te envio ao Faraó para fazer sair do Egito o meu povo..." Ali a descida, esvaziamento, de Deus está em entregar-se a Moisés, confiar, fazer de Moisés seu servo executor da libertação e da exaltação do povo oprimido. Quando alguém despreza Moisés despreza Deus humilhado, quando alguém obedece a Moisés obedece, exercita, a exaltação de Deus em Moisés.

A prática apaixonada de Deus em favor da humanidade não é nova, está presente no mundo desde sempre, mas chega à sua plenitude em Cristo Jesus (Hb 1,1-4 e Gl 4,4-6). Segundo Filipenses é Jesus, o Filho, que desce e assume a realidade criatural, humana, histórica, e não se trata só de um homem servo, mas de Deus servo. Ora, se o próprio Deus serve, qual é o problema de um humano servir? Tanto no mundo de Moisés quanto no mundo de Jesus e, ainda mais em nosso mundo, servir é visto como um ato servil, indigno para a humanidade "bem constituída". Servir preconceituosamente é visto como fruto do pecado, por isso até hoje temos dificuldade de assumir o cerne do ensinamento de Jesus Cristo e de sua atitude diante da história. Jesus, porém, nos ensina que servir é o caminho do Reino de Deus (Mc 10,43-45) Se para os reinos do mundo servir é expressão de vileza, no reino de Deus é nobreza. Para servir alguém é preciso sair de si, ir ao encontro do outro, da necessidade dele.

O eixo é a comunhão. O tema da carta aos Filipenses é a comunhão fraterna em Cristo, como fonte de alegria. No primeiro capítulo, Paulo mostra como o seu sofrimento, na pregação do evangelho, resultou em beneficio para os cristãos e mostra ainda que não faz caso do sofrimento contanto que Cristo seja proclamado (1,18). Paulo fala disso para encorajar a comunidade, que enfrenta adversidades (1,28). O segredo para enfrentar e superar o sofrimento é a unidade entre os membros da comunidade, e dela, com Cristo Jesus (1,27.29). Há em Filipos um desencontro de lideranças (4,2) para o qual Syzygo (Companheiro) está convocado a fazer mediação (4,3). Isto explica a exortação do capítulo segundo. Paulo entra mostrando que a alegria dele é ver a unidade perseverante dos membros da comunidade (2,1-2). Na verdade esta unidade não é só alegria do apóstolo, é também a salvação da comunidade, sua arma eficaz para superar os adversários. Isto corresponde ao ditado: "Povo unido jamais será vencido".

Paulo também esclarece que a pior adversidade não é a que vem de fora, mas a que pode se instalar dentro da comunidade, pior ainda quando se instala dentro de cada pessoa, membro da comunidade. A adversidade mortal para a unidade é a competição e a vanglória as quais se enfrenta exercitando a humildade e o serviço gratuito para com os demais (2,3-4). É então que Paulo apela para o exemplo de Jesus Cristo usando um imperativo: "Tende vós o mesmo comportamento (as mesmas disposições de proceder) de Cristo Jesus" (2,5). Isto não é um conselho e não está no condicional, é uma ordem o que caracteriza uma necessidade fundamental. Ao tratar das disposições interiores de despojamento de Cristo que deixa a condição de Deus para assumir a condição de criatura humana Paulo deixa claro que o modelo de nossa humanidade é a humanidade de Jesus em todas as suas instâncias, por isso é necessário que cada pessoa ame, pense, trabalhe e viva como o homem Jesus. Eis o caminho da graça, da fé, da vocação a que somos chamados.

Os mesmos sentimentos de Cristo devem habitar a mente, a alma e o coração de cada irmã para que possam de fato contribuir para a edificação do reinado de Cristo. "Chamadas a dedicar-se de preferência aos pobres e aos humildes, as irmãs amem-nos com os mesmos sentimentos de Cristo, alegrem-se de estar entre eles e de boa vontade ponham-se a seu serviço, contribuindo para a promoção integral dos mesmos" (Const. 40,2; confira também 9,2).

O caminho aberto por Cristo começando pelo despojamento. Eis então Jesus Cristo, o modelo, o exemplo, a prova de que isso agora é possível para todo ser humano. O que fez Ele? Sendo Deus, estando na forma de Deus não usou o direito de ser tratado como tal. Abriu mão de si, e desde dentro de si mesmo, se despojou, se esvaziou tomando a forma de servo, semelhante aos homens e reconhecido em seu aspecto, suas feições, como homem (Fl 2,6-7). Isto caracteriza o mistério da encarnação que Francisco chama de humilhação quando Cristo se faz presente na Eucaristia (Adm I,14-19). Francisco também cria o presépio para ver, com os olhos corporais, os apuros e as necessidades do nascimento e infância de Jesus (1 Cel 84).

O próprio Cristo coloca o despojamento como condição de todo o discipulado: "Se alguém quiser me seguir, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e me siga" (Mt 16,24). Na liberdade e com liberdade abrir mão de si mesmo para seguir Jesus com todas as consequências que este seguimento implica. O próprio Senhor Jesus Cristo, tendo direito a toda honra e toda glória, abriu mão disto para servir ao Pai e conseguir para nós a Salvação. Ora, se ele fez tudo isto, por que não podemos fazer o mesmo? Sim, além de Paulo, esta é também a exortação de Pedro: "Humilhai-vos sob a poderosa mão de Deus a fim de que Ele vos exalte no tempo oportuno" (1 Pd 5,6).

A humildade pregada aqui por Paulo nada tem a ver com sentimentos de inferioridade e de incapacidade, mas com reconhecimento de igualdade, irmandade, e de mútua pertença à comunidade e a vivência em comunidade. As nossas relações são afetadas por aquilo que nos habita tanto no positivo quanto no negativo. Sanando o que nos habita: sentimentos, pensamentos, afetos, movimentos interiores, teremos relações saudáveis e com elas poderemos viver, neste mundo, o Reino de Deus.

A irmã Franciscana de Cristo Rei está consciente disso, por isso é totalmente entregue aquele que totalmente a ela se deu: as irmãs "reconheçam que tudo quanto são e receberam é dom de Deus e todo o bem que fazem é fruto da graça que lhes foi concedida" (Const. 46,1).

Despojamento que chega a humilhação extrema (até a morte). O verso 8 é escandaloso porque nos mostra que o abaixamento, esvaziamento ou humilhação, a minoridade de Jesus Cristo, chega até a "desumanidade" pela obediência até a morte, e não se trata de qualquer morte. Trata-se da morte de Cristo na cruz. É dela que Paulo está falando. É morte única, modelo de salvação (cf. Mt 26,39). Em Cristo, a obediência até a morte, aprendida por meio do sofrimento (Hb 5,8) é exatamente o caminho que leva a dominar a morte. É uma submissão que se impõe sobre a rebeldia. A obediência a Deus, a sua vontade até entregar-se totalmente a Ele, sem nada reservar para si, se constitui força de resgate, de ressurreição, de plenitude. A humilhação não vem em prejuízo do humilhado, mas daquele que humilha. Ela não esgota a graça do humilhado, mas do humilhador.

O profeta Isaias falando do sofrimento do Servo de Javé diz: "se derramou a si mesmo até a morte e se deixou contar entre os pecadores" (Is 53,12). Derramar é transbordar. O servo transbordou de si mesmo. É importante acentuar que não se trata de uma humilhação imposta, mas assumida em favor de outros, não porque eles merecem, mas por pura misericórdia de Deus. Cristo Jesus nos faz saber e ver que Deus não trabalha com merecimentos, mas com gratuidade; não ajuda só quem merece, mas ajuda a todos, começando por quem mais precisa. A graça só não atua onde, na prática, ela for rejeitada.

No comportamento, nas disposições de Jesus, o homem-Deus, encontra-se o caminho de toda a humanidade. É isto que Paulo propõe à comunidade de Filipos e a todos os que vêm depois, pelos séculos dos séculos.

Exaltação acima de tudo. Se os versos 6-8 apresentam a decisão e a ação do Filho que se tornou modelo para todo cristão e para toda comunidade cristã, os versos 9-11 apresentam a decisão e a ação do Pai em correspondência a do Filho. Isso deixa claro que a missão de todo o cristão segue a decisão e a prática do Filho. Nossa vivência prática é o despojamento, a desapropriação, a minoridade, a obediência até a morte, isso tudo, em função da convivência, das relações fraternas, da criação e do cultivo da fraternidade aberta, ampla, universal. Não existe trono consistente e poderoso para quem não quer colocar os pés no chão, para quem não se dispõe a servir especialmente os mais necessitados. Os evangelistas não se cansam de insistir: "a quem se abaixa Deus eleva, a quem se eleva Deus abaixa" (Mt 23,12 e Lc 14,11). Essa exaltação é também trabalhada por Paulo na Primeira Carta aos Coríntios 15,24-27 onde conclui que tudo está posto debaixo dos pés de Cristo e consequentemente dos que estão em Cristo.

À prostração de Cristo toda a criação responde com sua própria prostração (Fl 2,7.10). Prostrar-se não é só colocar os joelhos no chão, mas todo o corpo debruçado sobre a terra, ou a cinza, sobre o pó. Este gesto continua ainda como excelência de humilhação e ao mesmo tempo de adoração. O esvaziamento de mim mesmo é a decisão de abrir espaço para a habitação do "outro" em mim. Antes que alguém se prostre diante de Jesus, Jesus mesmo se prostra em favor de toda a humanidade, toda a criação, em solidariedade para com ela. Por isso a prostração da criação diante de Jesus é o reconhecimento e a gratidão por tamanha solidariedade, mas não é suficiente a prostração diante dele, é necessária a continuidade da prostração dele em nós que nos fizemos discípulos. Prostração está solidaria com tudo o que ainda está preso, oprimido, negligenciado e desprezado. É diante dessa realidade que nos curvamos com Jesus e como Jesus para resgatar. Eis nosso verdadeiro reconhecimento do reinado de Cristo e nossa verdadeira participação na construção do Reino de Deus.

O Nome excelente. O nome que está acima de todo nome é "Senhor" (Fl 2,9). O nome que está abaixo de todo o nome é "servo". É no serviço ao Senhor que se adquire a dignidade dele. A ação de passar do senhorio para a servidão é do Filho, mas a ação de passar da servidão para o senhorio é do Pai. Assim como ele se fez servo de toda criatura o Pai o faz senhor de toda a criação diante do qual todo joelho se dobra. Trata-se da resposta da criação por meio do Pai à ação salvadora do Filho que implicou a entrega total de si mesmo em favor das criaturas.

Francisco ao tratar do envio de frades para a missão entre os pagãos deixa-se tocar pela humilhação de Jesus e diz: "Os irmãos que vão, no entanto, podem de dois modos viver entre eles. Um modo é que não litiguem, nem porfiem, mas sejam submissos a toda criatura humana por causa de Deus. Outro modo é que quando virem que agrada a Deus, anunciem a Palavra de Deus" (RnB XVI,5-7). Isto corresponde ao comportamento de Jesus narrado em Filipenses 2,6-11. Abaixamento, esvaziamento e submissão a criatura e na criatura por causa da salvação da criatura, por Deus. Pelo serviço despojado, solidário a partir dos últimos, como Jesus, o nome que está acima de todo o nome, chega-se a excelência da criação de Deus.

Cristo Rei. Mas para considerar a relação da missão com o atual nome da congregação é importante ver alguma declarações do próprio Jesus segundo os evangelistas: Tratando sobre o tema da precedência e do governo segundo Mateus Jesus diz: "Sabeis que os governadores das nações as dominam e os grandes as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim. Ao contrário, aquele que quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que serve, e o que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o vosso servo. Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Mt 20,25-28). Aí está claro que o reinado de Cristo é serviço, mas não é qualquer serviço, é o serviço libertador, em favor da Verdade, para o resgate da humanidade. Deus reina em Cristo como servidor, então é reconhecido como Senhor. Esse tema está também evidenciado no lava-pés onde a iniciativa do serviço é do líder e a continuidade do serviço é circular. Assim todos servem e todos são servidos (cf. Jo 13,1-17). Eis o caminho do reinado de Cristo atuado em seus discípulos e discípulas.

O foco que desafia a irmã é o modo de Cristo reinar, isto é, dando a vida em favor do resgate dos outros partindo de quem se encontra em maior dificuldade. A humilhação e o despojamento são companheiros inseparáveis desta missão. Eis o discipulado da discípula/apóstola de Cristo Rei.

Fr. Moacir Casagrande OFMcap.